
BroadAcres City Frank Lloyd Wright
Tivemos a oportunidade, a semana passada, de receber entre nós, dois homens que nos dão duma maneira contrapontistica os limites de dois modelos, de dois olhares sobre o território e o planeamento: Antoine Bailly e Lorenzo López Trigal.
I. Antoine Bailly, trouxe-nos o desenvolvimento rurbano sustentável com uma geneologia onde vamos encontar, entre outros, os desurbanistas da URSS, Clarence Perry, da vizinhança auto contida, e Frank Lloyd Wright e a sua broadacre city. Mais ou menos marcadas pelo tempo em que foram produzidas estas referências têm, talvez, em comum uma confiança modernista, que parecerá a muitos cândida, na capacidade de planear o território, ainda que o colectivismo inspirador dos desurbanistas esteja em clara contradicção com o espirito americano de Lloyd Wright.
Bailly, à semelhança de Lloyd Wright, sonha com a fusão das amenidades urbanas com a majestade da vida rural e reconhece as possibilidades geradas pela melhoria das acessibilidades provocadas pelos modernos meios de transporte e pela melhoria da rede viária. Lloyd Wright ancora-se na democracia americana no seu sentido fundador e revolucionário. Bailly dizia em 1998 “ actualmente, a globalização, a importancia que adquirem as cidades e as regiões, a emergencia de novos formas de vida no sistema globalista, põem o problema da gestão deste sistema, repensando nomeadamente a democracia e a prática da cidadania.” (Relatório final sobre o tema Aprender a viver em conjunto graças ao ensino da história e geografia, 1998 Géneve pag. 5). Assume-se claramente o repto de “gerir” um sistema que necessáriamente complexo e marcado pelas tendencias da sociedade, terá de considerar as questões da polis.
Existe, assim, uma ideia de comunidade humana subjacente à procura de gestão o que de alguma maneira poderá corresponder a uma busca de “organicidade”. Talvez em Lloyd Wright se encontre as mesma procura. Fica-se no entanto com a sensação, e posso evidentemente estar errado, que o modelo é independente do lugar o que, a ser verdade, corresponde a um paradoxo relativamente à arquitectura de Wright.
Bailly ao acrescentar a ideia de sustentabilidade ao desenvolvimento rurbano impoe outras exigências à relação entre o projecto e a comunidade a que se destina, não só no momento da sua elaboração e implementação, mas também no seu desenvolvimento temporal. Impõe-se assim uma maior “organicidade”.
A questão que deixo é em que medida o espirito modernista impregna ainda a teoria de Bailly e lhe falta, também a ela, sentido do todo, uma visão holística que considere que cada lugar tem um espirito que importa ouvir ou se quisermos uma ecologia que pode ser uma vantagem competitiva, uma singularidade criadora que não parte da contradição entre o homem e a natureza mas do respeito mútuo e da parceria.

BroadAcres City Frank Lloyd Wright
II. Lorenzo Lopez Trigal trouxe-nos o “conceito de competitividade urbana e outros afins como a atractividade, eventos e marketing urbano”. Ao colocar a cidade como motor da economia e ao transformar a metafora da empresa num modelo aplicável às cidades Lopez Trigal toma mão de um formidável instrumento de desenvolvimento das cidades que se chama: mercado. Claro que nas cidades, como na economia em geral, por vezes o mercado não funciona ou funciona mal. Da conferência de López Trigal poderão emergir entre outras, 3 tipos de questões:
A primeira questão que se poderá colocar é se, no longo prazo, uma cidade exclusivamente entregue à “mão invisivel” do mercado não se ressentirá do ponto de vista da coesão social, da segurança, da estabilidade e da confiança que sua vez são os genitores duma boa imagem da cidade e da atractividade desta.
A segunda questão tem a ver com a estratégia centrada na atracção da matéria da competitividade: investimento e saberes e competências escamoteando a criação das condições para o seu desenvolvimento interno.
Em terceiro lugar, em que medida é que vendo as outras cidades mais como concorrentes do que como cooperantes, mais como ameaças que como oportunidades, se está a fechar a porta à sociedade em rede e à inteligência conectiva.
No meu campo especifico de acção, não consigo deixar de pensar que Bairros como a Quinta da Fonte são produto da Expo e pensando duma maneira mais geral a sobre valorização da teoria da competitividade aplicada à cidade tem levado à centrifugação dos “problemas” para uma cintura urbana de bairros onde estamos a atingir um ponto de explosão. Tratar as pessoas marginalizas ou excluidas como ameaças é que cria o problema. De modo que o problema somos nós. Nesse sentido temos uma responsabilidade como técnicos e uma responsabilidade política como cidadãos.
Temos evidentemente que juntar a esta, uma visão mais geral que considere os efeitos positivos da atracção de investimentos, competências e saberes, que aumentem a massa crítica da cidade e que a coloquem no “mapa”.

BroadAcres City Frank Lloyd Wright
III. Existirá alguma combinação possível entra as duas teorias?
Tomamos como referência um único eixo a partir do qual algumas das clivagens se produzem, reconhecendo a existência de, pelo menos mais outro que se refere à relação cidade/campo que manteremos fora do debate.
Plano/ Mercado – Uma discussão que marca o sec xx e que básicamente entronca em duas concepções políticas. Simplificadamente o Plano como instrumento de construção do “Socialismo” e o Mercado como lugar central do Capitalismo e do seu desenvolvimento. As formas “puras” foram na verdade práticamente inexistentes mas o que interessa(va) e(ra) donde vinha a dominância. A revolução soviética tem nos seus primórdios a NEP (Nova Política Económica) de Lenin e a Républica Popular da China com as suas Zonas Económicas Especiais e Cidades Costeiras são exemplos de submissão do Mercado ao Plano. Por outro lado, mesmo nos regimes capitalistas mais liberais se reconhece a necessidade de áreas da sociedade que exigem uma intervenção planeada.
No caso da Europa, esta conciliação adquiriu o aspecto daquilo a que se chama a “Economia Social de Mercado” que em sintese aponta para deixar que o mercado funcione competindo ao Estado intervir onde e quando o mercado não funcione, ou funcione mal. A Economia Social de Mercado pode parecer assim uma procura, para alguns ingénua e onerosa, do melhor de dois mundos. Esta procura de centro pode condenar a Economia Social de Mercado a “não ser carne nem peixe” e suportar mal as incursões dos defensores do liberalismo económico nomeadamente tomando o “benchmarking” da eficiência e da competitividade.
Não vou usar a bengala do contexto dizendo que não se pode dissociar a política económica da política tout court e que a associação entre capitalismo e liberalismo económico e socialismo e planeamento foi superada com a queda do muro. Proponho-vos outra direcção, talvez mais contemporânea. Se olharmos à nossa volta veremos as enormes possibilidades que as modernas teorias de responsabilidade social das empresas abrem para a criação de redes onde diferentes parceiros contribuem para o bem comum. Os cidadãos assumem cada vez mais o consumo responsável como processo activo de transformação e até como afirmação de identidade o que por sua vez influência a vida das empresas e a sua maneira de estar no mercado. Inovação e a competitividade estão, cada vez mais na agenda política mas como consegui-las sem investir na educação, sem a recriar no sentido de dar tanta importância à criatividade como à literacia? Como fazê-lo numa Europa cuja população envelhece sem investir no “capital de acolhimento” dos imigrantes, do “outro”? Empresas, Cidadãos e Organizações de Cidadãos e Estado compõem infinitas combinações e possibilidades cooperação baseadas em diálogo e acção comuns. Os cépticos dirão: isso é muito bonito mas onde é que isso se faz? Na verdade está-se fazendo por todo o lado e os maiores casos de sucesso na frente do combate à pobreza resultam de combinações inteligentes e radicais da sinergia entre empresas, governos e organizações de cidadãos e combinam essas diferentes culturas para obter resultados práticos e campos de acção onde tudo parece ter falhado antes.
De passagem gostaria de sublinhar que estaremos perante o paradoxo da teoria das cidades de López Trigal se apropriar de uma visão empresarial que as próprias empresas já abandonaram em função da nova ética que as regula.
A terceira via aponta para a superação desta dicotomia plano/mercado e aponta no sentido da cidadania. A solução não será técnica mas política.
Ontem na RTP Àfrica numa entrevista perguntava-se como resolver a questão da habitação nos bairros degradados. Alguém respondia de uma maneira luminosa: “perguntando isso mesmo aos habitantes desses bairros”.
A resposta encerra um programa político porque pressupõe a capacitação desses habitantes para a cidadania plena, o que evidentemente se faz a partir de práticas concretas: da acção em comum em esfera pública.
Em geral os principio essencias da política, a procura do bem comum, a referência à justiça social, a combinação entre os principios da democracia e subsidariedade que compatibiliza democracia directa e democracia representativa poderão ser o código genético duma nova maneira de olhar o território que não rejeite as técnicas existentes mas as combine de forma virtuosa em busca da utopia:
- Uma sociedade em que seja reconhecida a soberania de todos os sujeitos, em que a diversidade e a diferença seja considerados um ponto de partida positivo, em que seja construido um senso comum através do diálogo e uma acção sinérgica que superando fronteiras e categorias estabelecidas nos conduza a um mundo com menos individualismo, xenofobia, classismo, nacionalismo míope, fundamentalismo religioso, mas também menos pobreza, menos guerra e menos agressão ambiental.
Esta visão sugere que a técnica se submeta à política e a organização da cidade à organização da Polis: A organização do contexto físico e simbólico da acção comum.
quarta-feira, dezembro 5, 2007